Kyrie Eleison

Kyrie Eleison

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O “Homem Velho”, o Ego e o Poder que o Nome de Jesus traz ao Coração


Leia Efésios 4.7-24


“quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano... e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus.”


São Paulo, apóstolo de Jesus Cristo

A sabedoria cristã afirma que o centro da vida é o coração e não a razão. De nada vale uma razão bem desenvolvida se não transformada. Isso porque não somos dirigidos pelo poder da razão, mas pelos sentimentos que habitam dentro de nós. Exatamente por isso, a espiritualidade cristã é um caminho que prima tornar a pessoa conhecedora de Deus e das paixões de sua própria alma. A metanóia, a conversão da pessoa em sua interioridade, é o objetivo supremo do Caminho Espiritual.

São Paulo, o apóstolo de Jesus Cristo, falando sobre fé e espiritualidade, denunciou que o velho homem é dirigido por suas paixões. O “velho homem” é o ego, o “eu” dentro de cada um de nós que não adora a Deus, que não O louva. Que cultiva o amor a si mesmo acima de tudo e de todos. O ego é vaidoso - como dizia Salomão. O ego é o eu dominado pelas paixões e arrastado por elas. É bom que se diga também que o ego tem vontade própria. É dominador. Ama o “mundo”. Não ama a Paz. Não ama a verdade e nem a justiça. O ego é apaixonado pelo pecado. E é no pecado que ele se realiza. É dele que sobrevive.

Cristo, Senhor Nosso, nos alertou dizendo que “onde estiver o nosso tesouro [paixão], ali estará também o nosso coração.” Com grande facilidade nosso eu se apaixona por coisas supérfluas e mesquinhas. Os Evangelhos nos mostram isso quando nos alertam para o grande perigo das daimonias, dos diabolos, doenças ou paixões que dividem o ser humano, fazendo-o adoecer espiritualmente e roubando sua possibilidade de vida plena. O mesmo encontramos na palavra hebraica shatan, que significa “obstáculo”, aquilo que quebra a unidade do ser humano com Deus, com os outros e com a vida. É ainda aquilo que dificulta a realização do verdadeiro ser e o que impede o pleno desabrochar da vida no Espírito.

A palavra êxodo, que significa saída, pode nos ajudar também a entender algo muito importante: que a vida cristã é um movimento constante de abandono do poder do ego rumo ao encontro sempre mais pleno com o poder Deus. O coração deixa o pecado e abraça uma nova proposta de vida: tornar-se um novo homem, um pequeno cristo. Daí vem a admoestação do apóstolo Paulo aos crentes de Éfeso, ordenando que precisavam aprender mais de Jesus: Generoso, Puro, Manso e Humilde de Coração.

Purificar o coração é a meta da vida espiritual – “Os puros verão a Deus”. Purificar a parte apaixonada [doente] do coração é um trabalho que requer cuidado e disciplina de oração, a fim de que o coração encontre Deus verdadeiramente. Como é proposto no mandamento: amar a Deus de todo o coração. E não apenas com parte dele.

Aprender mais de Cristo é aprender dia-a-dia a se despojar do “velho homem”, vencendo o pecado. Não deixar que o ego destrua nossa vida espiritual é uma tarefa muito difícil. Ele trabalha 24 horas para a ruína de nossa vida com Cristo e com os irmãos. Não nos esqueçamos: ele se alimenta e sobrevive do pecado, e não de santidade, pureza e amor ao outro. Sendo assim, somente a intensa busca pela oração no Nome de Jesus Cristo, é capaz de gerar a comunhão do coração com Deus. Somente o Nome de Jesus é poderoso para neutralizar as forças do ego, aplacar a fúria do “homem velho” sempre disposto a ressuscitar-se dentro e fora de nós.

Como diziam os primeiros cristãos, cheios de Deus, a oração no Nome de Jesus Cristo nos permite olhar dentro do nosso coração, entendê-lo e liberá-lo das ilusões que deseja. Através da oração, podemos descobrir que o eu que pensávamos ser verdadeiro, possivelmente seja a mais pura manifestação do nosso ego inflado. Orar e orar. Depois disso, ainda que não tenhamos alcançado uma libertação plena, ao menos saberemos em que situação estamos. Pois ninguém pode ser liberto do que não conhece. Ninguém pode ter purificado o coração, se ainda não se deu conta de que precisa purificá-lo pelo Nome de Jesus.

“Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia.” (1 Tm 1.5). Esta é a exortação de São Paulo, o apóstolo, a Timóteo, seu discípulo. Exortação esta que ainda se aplica a todos nós.

Reverendo André Botelho

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Encontro com Abba

Ao orar, não feche os olhos.
Deus só pode ser visto quando os olhos realmente estão abertos.
Aprendemos, desde criancinhas, que Deus está distante, muito longe.
Está num céu perfeito, enquanto vivemos num mundo imperfeito.
Esqueça tudo isso, se você realmente quiser ter um encontro com Abba. Deus não é tão pequeno que só possa estar no céu, nem tão grande para não poder caber na terra e em cada um de nós. Esqueça essas categorias de pequenez e grandeza. Esqueça as categorias de tempo e de espaço. Onde Deus está, o tempo e as dimensões que conhecemos não existem.
Gloria a Elohim!

Esqueça quase tudo o que você aprendeu, se você realmente quiser ter um encontro com Abba Elohim – apenas não deve jogar fora as lições e as experiências que fez de Amor em cada dia e minuto de sua vida.

Felipe, um apóstolo de Iéshoua, após ter andado três anos com o Mestre, não conseguia enxergar a presença de Abba Elohim na vida de seu mestre. Ele disse: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.” Mestre Iéshoua respondeu: “Felipe, há tanto tempo tenho estado convosco, como dizes tu, ‘mostra-nos o Pai’?” Nós também, a exemplo de Felipe, somos assim. Andamos na religião. Cumprimos seus ritos. Decoramos suas leis. Mas ainda precisamos ter abertos o olhar para Abba Elohim.

Pare, deixe a dúvida tomar conta de você, lance fora suas certezas. Questione: “Deus, onde estás?” Longe ou perto demais? Os hipermetropes, não conseguem enxergar aquilo que está perto, buscam sempre o que está longe. Assim tem sido a busca de Deus por parte de alguns homens. Deus está sempre longe, precisando de pontes e sacrifícios para ser alcançado.

Embora Felipe não pudesse ver a Deus-Pai na vida de Iéshoua, Abba Elohim sempre está lá. Iéshoua disse: “Crede ao menos pelas obras.” A Palavra de Iéshoua nos proporciona três ensinamentos básicos sobre visão espiritual. Primeiro ensinamento: que a grande maioria das pessoas, simplesmente, não vêem nada, absolutamente. Imersos nas necessidades materiais criadas pela ideologia do consumo, nada podem ver além de suas próprias e urgentes necessidades. Estão desesperadas para se tornarem felizes – a busca de toda pessoa humana – sendo vítimas fáceis da propaganda que vincula felicidade ao consumo de bens. Não conseguem ver nem mesmo seu lado divino, quase sempre apagado pelas forças dos demônios das necessidades egocêntricas. Essas pessoas ainda não encontraram o Caminho.

Segundo ensinamento: que algumas pessoas podem ver a manifestação do divino nas obras. As obras revelam e remetem ao divino. Curar, abraçar, acarinhar, servir, se humilhar, amar, são “obras”, resultados de uma vida cheia do Espírito Divino. Não é difícil perceber o fogo do Espírito nessas vidas, Ele é o combustível desse amor. Iéshoua suplica a seu discípulo Felipe que veja ao menos isso com o olhar de sua razão. Felipe, como cada um de nós – se não estivermos com nosso olhar do coração aberto –, deve compreender o óbvio: que o Espírito de Abba está por detrás de toda boa ação verdadeira e não egoísta.

Terceiro ensinamento: que poucas pessoas podem ver além dos olhos. Sobre isso desejo falar. Recomeçando e dizendo...

Ao orar, não feche os olhos... abra o coração.

Abba Elohim só pode ser visto quando os olhos realmente estiverem abertos. Por eles, o coração, Elohim entrará.

Ele não está longe. Deus está perto. Abba Elohim é o fundamento de todas as coisas. Assim, poderia cada pequeno inseto continuar existindo sem sua Graça? Poderia os répteis, as aves, os mamíferos continuarem a existir sem o Seu Amor? E o verde que predomina na natureza e que ampara a beleza das cores das flores de tão grande beleza? Seus perfumes nos chegam pelo ar que é dádiva de Abba Elohim. Mas o fundamento divino dá também a inteligência a cada um de nós, seus filhos e filhas. A presença de Abba está em cada criatura e em todo o Universo. Nada pode subsistir sem Ele, e Ele não deseja existir sem sua Criação, sem sua obra maravilhosa.

Se Abba Elohim não deseja existir sem nós e nós não podemos subsistir sem Ele, Seu Espírito está em tudo e tudo está Nele. Estamos em Deus, porque Deus está em tudo. Ao orar, não posso simplesmente ignorar essa Lei da Verdade. Ao orar a Elohim, não posso ignorar que Ele não está apenas no céu, mas sim em tudo e em mim. “Ah Elohim... Tu estás em tudo, Tu estás em mim! Glória de Elohim, tudo está em Ti.”

Dizer que algo, a não ser o mal que faço, não está em Elohim, é Torná-lo pequeno, como um deus que penso, mas que não existe, a não ser nas categorias de nossa racionalidade moderna.

Por falar nela, em nossa razão, que é divina também, devemos ter cuidado: a ciência do homem não é a ciência de Elohim. A razão humana quer suplantar a Sabedoria – pobre desejo. Nossa razão, quando não iluminada pela Sabedoria de Elohim converte-se em vaidade e gera separação. “Ai de mim, pobre que sou... longe de Elohim.”

Assim, quando entendo que não posso fugir da Presença, pois estou Nela, minha oração se converte em adoração. Adoro Abba Elohim porque tudo fez e mantém; porque tudo fez e está em tudo. Posso confiar que ele abre o olhar do meu coração e, diferentemente, de Filipe, vejo Abba em Iéshoua. Vejo Abba em sua Criação. Vejo Abba em mim e em nós.

Minha oração é dialógica. Falo, mas principalmente ouço a voz multiforme de Elohim. Ele fala a mim, pois me ama. Sua voz me aquece. Sua voz é a direção que necessito para a jornada da vida. “Ah... Abba Elohim, Tu falas a mim.”

Quando Abba Elohim fala a mim, ouço a Sua voz e a obedeço. Ela é majestosa. A voz do Senhor é grandiosa como os altos e fortes cedros do Líbano. Apesar da oração ser diálogo, a voz de Abba Elohim me constrange. Inflama meu coração, me faz arder. “Abba Elohim arde em mim!” Seu Espírito de Fogo me purifica. Preciso lançar no fogo de Elohim meus temores – sei que posso Nele confiar. Seu fogo é, exatamente, o lugar onde meus pecados – a falta do exercício do amor – podem ser lançados e desconstruídos. Mas Abba Elohim espera que eu lance também Nele minhas dores. Meus jugos e fardos. Ele disse por seu filho Iéshoua: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” Sim... “Ah, Elohim, Tu cuidas de mim!” Na oração sou purificado e regenerado. Elohim Criador nos recria na vida de oração, sua Ruah é poderosa e está em nós.

Após o encontro da oração entre nós e Elohim, a vida se torna mais romântica. O noivo ama a noiva. O pai ama a filha. A mãe ama suas criaturas. O amor arde como fogo inapagável. Por isso o amigo venera o amigo. O irmão serve aos irmãos. As crianças brincam e sorriem. As cores se tornam mais vivas. Nós nos tornamos mais humanos, e só assim iguais a Iéshoua.

Quando penso, então, que minha oração foi pausada, quando penso que adentrarei num cotidiano da vida sem Deus, me surpreendo ao ver que meus olhos foram abertos para Elohim e que em tudo vejo seu amor que cuida de mim. Glória a Elohim.

Abba, que seja assim.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Orar Para Entusiasmar o Coração

Muitas pessoas ficam entusiasmadas ao verem uma personalidade famosa. Um sentimento de alegria irrompe diante do que se vê e do que, no fundo, espera-se um dia ser. Um artista representa nossas mais profundas expectativas pessoais de sucesso e de reconhecimento. Ele/a é rico/a, bonito/a, talentoso/a e inteligente. Ele é o que desejamos ser. Mas, não é difícil perceber que artistas não passam de ídolos ou objetos de adoração artística criados pela mídia ou pela indústria do entretenimento. A palavra ídolo [èdolon] significa simulação, aparência exterior ou ainda uma figura, um ícone em exposição.

O ídolo significa o que se deseja, por isso muitos se ajoelham diante deles – ou na estrutura moderna, podem lotar auditórios, templos ou estádios para reverenciá-los. Poucas pessoas sabem que a palavra entusiasmo [do grego en + theos] significa "em Deus". Significa ter um deus/ídolo dentro de si. O risco de nos entusiasmarmos com deuses/coisas não é pequeno. As pessoas se entusiasmam com o carro novo da propaganda, com a roupa da moda, a casa ideal ou a posição que nos traz segurança e confiança. Jesus nos alertou para o perigo das coisas que podem entusiasmar de forma equivocada o nosso coração. O perigo do apego aos pequenos “deuses” nos dias de hoje é enorme.

Você já parou para olhar o universo criado por Deus e toda a sua glória? Seu coração já se entusiasmou com isso? Os sinais de Deus para nossa vida estão sempre aí, diante de nós. Temos acesso exclusivo ao Criador. Podemos falar com ele. Podemos ouvir a sua voz, falando-nos em todo instante de nossa existência. Mas para compreender e ver tudo isso, é preciso muito entusiasmo no coração: o em-Tu-siasmo → en Theos. A realidade do coração cheio de Deus. Profundamente entusiasmado com Ele.

A oração é a via para a experiência entusiasmada do divino. Para se estar Nele e Ele no coração. Num mundo que se caracteriza pelo esquecimento de Deus, quem ora se torna amigo Dele e compartilha do Seu poder. Quem ora está em Deus, e é neste sentido que não há nada mais valioso para se ter um coração realmente entusiasmado do que a oração.

A oração é a força que move e entusiasma a vida espiritual. A vida espiritual entusiasmada gera a oração entusiasmada. Agora, perceba que não falo de oração entusiástica! Esta é aquela do fariseu apontado por Jesus. Está voltado para fora, e não para dentro. Para os homens, e não para Deus. A oração entusiasmada promove o encontro íntimo entre nós e Deus. Ela leva o coração humano a se mover com fervor para Deus, para adorá-Lo, para venerá-Lo. Pela oração entusiasmada, Ele, o Gracioso, é gravado em nosso coração.

A oração entusiasmada torna a nossa oração incessante (1 Tessalonicenses 5.17). Quando incessante, nossa oração se torna pura, inflamada, imersa e constante na presença divina. Ela se torna libertadora da pessoa que não mais precisa de ídolos exteriores para a afirmação do seu eu – que agora deseja ser como Cristo, um pequeno cristo, um cristão. Através da oração entusiasmada e incessante Deus está dentro de nós. Mas, jamais se esqueça: não existe nada mais difícil neste mundo do que manter uma disciplina pessoal de oração. Quando queremos mesmo orar, os “demônios” nos atormentarão. Neste sentido, a oração entusiasmada nos torna guerreiros contra os ídolos e os deuses que tentam nos afastar dos pés do Senhor Jesus - lugar privilegiado da vida espiritual.

A oração entusiasmada é expressão da vida no Espírito e do Espírito Santo em nós. Leva-nos a orar incessantemente até que o Espírito Santo desça sobre nós. Um dia um discípulo perguntou a um velho cristão cheio de Deus: como encontrar a perfeição da oração? O homem de Deus se colocou de pé, estendeu as mãos para o céu e os seus dedos se tornaram como dez velas acesas. Então disse ao jovem discípulo: "Deves tornar-te todo como fogo”. Issac, bispo de Nínive, homem dedicado ao estudo das Escrituras e que renunciou ao cargo eclesiástico para se dedicar à vida de oração, diz que "quando o Espírito Santo de Deus habita o coração, a pessoa não cessa de orar”. Ele afirma que o Espírito Santo passa a ser o nosso companheiro de oração, fazendo-nos orar em todo tempo (Romanos 8.26-27). Seja dormindo, trabalhando, caminhando, cozinhando etc, a oração não mais cessa no coração do cristão entusiasmado de Deus. Trata-se de uma experiência espiritual onde o perfume suave da oração emana espontaneamente do coração cheio de Deus. Nesta realidade, ora-se não apenas nos horários determinados. A oração foi transformada em ato contínuo. Esta faz do homem um adorador que louva a Deus conjuntamente com todas as criaturas sobre a face da terra.

Que a Paz esteja com você.

Reverendo André

A Espiritualidade como Generosidade

Leia Jó 1.13-22 e 42.1-5

“Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor! Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.”
Jó 1.21-22

Após receber notícias tão duras, de perdas inestimáveis, Jó lançou-se em terra e adorou o Senhor com as palavras acima. O comportamento de Jó parece perfeito, no entanto a sua fé continuaria a ser provada. O Senhor não queria a ruína de Jó, mas que crescesse no conhecimento espiritual. Pouca gente sabe que Jó andava tão ocupado e distraído que precisou “ser levado para um deserto” para aprofundar sua experiência de Deus e sua fé. Após grande provação ele mesmo confessa, ao falar com Deus: “Antes eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te vêem.” (Jó 42.5). Ver o Senhor certamente é uma experiência espiritual bem mais valiosa do que apenas conhecê-Lo de ouvir falar.

O que deseja o Senhor para seu filho Jó? Desejava que ele crescesse no conhecimento espiritual e no desabrochar de uma humanidade mais madura, pois que vê o Senhor é transformado de glória em glória. É impossível alguém ver a Deus e continuar dentro de uma espiritualidade medíocre. Fé medíocre é para aqueles que O conhecem apenas de ouvir falar.

Hoje, o que seria uma espiritualidade medíocre e uma espiritualidade madura? Ao sermos provados nossa fé certamente é revelada. Uma pequena história nos ajuda a refletir sobre isso. Ajuda-nos a ver que tipo de aprofundamento Deus deseja para nós.

Afirma a história que um hóspede chega à casa de um homem. Havia somente um pouco de leite, que lhe foi oferecido. Mas o hóspede continuava com fome. O homem entra dentro de casa e diz a sua mulher: "Mata a cabra!" - "Mas ela é tudo que nós temos, vamos morrer de fome!" grita ela. "É melhor morrer de fome do que deixar o hóspede faminto." Eles mataram a cabra e a serviram. No momento de despedir-se, o hóspede diz a seu servente: "Dá-lhe tudo o que guardas!" - "Mas é uma fortuna, mestre, e ele não matou senão uma pobre cabra!", exclamou o servente. "Exato, porém ele nos deu tudo o que possuía e nós demos pouca coisa. Sua generosidade ultrapassou de longe a nossa".

A melhor espiritualidade é exatamente aquela que irrompe em uma humanidade generosa e humilde. Jesus já falara sobre isso, sobre a importância de sermos simples, humildes, como crianças, jamais permitindo que a arrogância e o desejo do luxo penetrem em nossos corações. Nosso mundo é arrastado e destruído pelo amor ao dinheiro, à fama. As pessoas tornam-se superficiais. Nosso mundo torna-se egoísta e cego diante das reais necessidades humanas. Está distraído com aquilo que a própria razão humana constrói, necessidades urgentes, mas supérfluas. Há muitos crentes também assim. Distraídos como Jó. Conhecedores de Deus por ouvir falar.

Que estejamos sempre abertos para necessidade reais, em nós e nos outros. Que nossas maiores necessidades sejam amar nossa família, amigos e inimigos. Seja exercitar a paciência que tanto nos falta. Seja valorizar cada momento da vida como bem tão precioso nos dado pelo Criador. Seja encontrar satisfação no que temos e somos. Seja parar e refletir como manter sempre o nosso o coração generoso e em constante processo de transformação. Seja ver o Senhor com os olhos do nosso coração purificado e humilde. Toda glória a Ele, Deus Misericordioso e cheio de Graça.

Reverendo André

A Purificação do Coração

“Ora, o Senhor conduza o vosso coração ao amor de Deus e à constância em Cristo.” 2 Ts 3.5


A meta da vida cristã é Cristo e seu reinado no coração. “Buscai, pois, o Reino de Deus...” (Mateus 6.33). O reinado de Cristo em nosso coração, faz-nos reencontrar nosso eixo essencial, nossa verdadeira humanidade, a vida com Deus e seu poder em nós, que nos liberta do mal.

Mas, o que reina sobre nós? Um exame profundo e sincero pode revelar que nosso coração está tomado por memórias dolorosas, por ambições, por remorsos, ou por desejos egoístas. O Reino de Deus é onde Cristo reina com seu poder libertador. Qual é o caminho para este reinado em nós? A Purificação do Coração, que evita que o pecado faça adoecer o nosso coração e o afaste de Deus.

“Guarde-te não te esqueças do Senhor, teu Deus... para não suceder que depois de teres comido e estiveres farto... depois de se multiplicarem os teus gados e os teus rebanhos, e se aumentar a tua prata e o ouro, e ser abundante tudo quanto tens, se eleve o teu coração, e te esqueças do Senhor, teu Deus...”

Sem pureza de coração, o Reino de Deus não pode se estabelecer como uma realidade viva dentro de nós. Se a meta da vida cristã é o reinado de Deus no coração, o meio para isso é a praktiké: a purificação dos pecados pela oração. Não há vida cristã plena sem purificação do coração, sem torná-lo livre dos pecados e das paixões.

A pureza do coração é um estado de liberdade que vem pelo desapego daquilo que não é necessário. O vício ao que é supérfluo gera a ansiedade e a dependência do coração às coisas materiais descartáveis. Quando nos esquecemos de guardar o coração em pureza, ele se torna apegado a tudo que viu durante o dia.

Marcos, um monge cristão do século IV disse:

"No momento em que te lembras de Deus, multiplica tua oração, a fim de que, no dia em que te acontecer esquecê-lo, o próprio Senhor te faça tornar a lembrar-te dele."

Multipliquemos nossas orações!, pois ninguém pode caminhar e viver bem consigo mesmo e com os demais se não conhecer o próprio interior e as forças que o impelem. Se não purificarmos diariamente nosso coração pela oração, lançando no fogo do Espírito Santo os pecados e as dores que nos consomem, não encontraremos o descanso prometido por Jesus.

Quantas pessoas estão fugindo para as drogas, fugindo para o trabalho, fugindo para o imaginário ou para as fantasias, fugindo para o distante... Importa saber do que se está fugindo. Muitas vezes da realidade daquilo que somos e não sabemos.

Deixar Cristo limpar os pecados do nosso coração é o início da verdadeira vida espiritual. Pertencer ao povo santo é “trazer o Nome de Deus” (Dt 28.9-10; Jr 15.15) no coração. A glorificação do Seu Nome está para muito além do conhecimento racional. Importa sentir que Deus reina num coração esvaziado de si e cheio do poder do seu Nome.

Muita paz no coração,

Reverendo André