Leia Efésios 4.7-24
“quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano... e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus.”
São Paulo, apóstolo de Jesus Cristo
A sabedoria cristã afirma que o centro da vida é o coração e não a razão. De nada vale uma razão bem desenvolvida se não transformada. Isso porque não somos dirigidos pelo poder da razão, mas pelos sentimentos que habitam dentro de nós. Exatamente por isso, a espiritualidade cristã é um caminho que prima tornar a pessoa conhecedora de Deus e das paixões de sua própria alma. A metanóia, a conversão da pessoa em sua interioridade, é o objetivo supremo do Caminho Espiritual.
São Paulo, o apóstolo de Jesus Cristo, falando sobre fé e espiritualidade, denunciou que o velho homem é dirigido por suas paixões. O “velho homem” é o ego, o “eu” dentro de cada um de nós que não adora a Deus, que não O louva. Que cultiva o amor a si mesmo acima de tudo e de todos. O ego é vaidoso - como dizia Salomão. O ego é o eu dominado pelas paixões e arrastado por elas. É bom que se diga também que o ego tem vontade própria. É dominador. Ama o “mundo”. Não ama a Paz. Não ama a verdade e nem a justiça. O ego é apaixonado pelo pecado. E é no pecado que ele se realiza. É dele que sobrevive.
Cristo, Senhor Nosso, nos alertou dizendo que “onde estiver o nosso tesouro [paixão], ali estará também o nosso coração.” Com grande facilidade nosso eu se apaixona por coisas supérfluas e mesquinhas. Os Evangelhos nos mostram isso quando nos alertam para o grande perigo das daimonias, dos diabolos, doenças ou paixões que dividem o ser humano, fazendo-o adoecer espiritualmente e roubando sua possibilidade de vida plena. O mesmo encontramos na palavra hebraica shatan, que significa “obstáculo”, aquilo que quebra a unidade do ser humano com Deus, com os outros e com a vida. É ainda aquilo que dificulta a realização do verdadeiro ser e o que impede o pleno desabrochar da vida no Espírito.
A palavra êxodo, que significa saída, pode nos ajudar também a entender algo muito importante: que a vida cristã é um movimento constante de abandono do poder do ego rumo ao encontro sempre mais pleno com o poder Deus. O coração deixa o pecado e abraça uma nova proposta de vida: tornar-se um novo homem, um pequeno cristo. Daí vem a admoestação do apóstolo Paulo aos crentes de Éfeso, ordenando que precisavam aprender mais de Jesus: Generoso, Puro, Manso e Humilde de Coração.
Purificar o coração é a meta da vida espiritual – “Os puros verão a Deus”. Purificar a parte apaixonada [doente] do coração é um trabalho que requer cuidado e disciplina de oração, a fim de que o coração encontre Deus verdadeiramente. Como é proposto no mandamento: amar a Deus de todo o coração. E não apenas com parte dele.
Aprender mais de Cristo é aprender dia-a-dia a se despojar do “velho homem”, vencendo o pecado. Não deixar que o ego destrua nossa vida espiritual é uma tarefa muito difícil. Ele trabalha 24 horas para a ruína de nossa vida com Cristo e com os irmãos. Não nos esqueçamos: ele se alimenta e sobrevive do pecado, e não de santidade, pureza e amor ao outro. Sendo assim, somente a intensa busca pela oração no Nome de Jesus Cristo, é capaz de gerar a comunhão do coração com Deus. Somente o Nome de Jesus é poderoso para neutralizar as forças do ego, aplacar a fúria do “homem velho” sempre disposto a ressuscitar-se dentro e fora de nós.
Como diziam os primeiros cristãos, cheios de Deus, a oração no Nome de Jesus Cristo nos permite olhar dentro do nosso coração, entendê-lo e liberá-lo das ilusões que deseja. Através da oração, podemos descobrir que o eu que pensávamos ser verdadeiro, possivelmente seja a mais pura manifestação do nosso ego inflado. Orar e orar. Depois disso, ainda que não tenhamos alcançado uma libertação plena, ao menos saberemos em que situação estamos. Pois ninguém pode ser liberto do que não conhece. Ninguém pode ter purificado o coração, se ainda não se deu conta de que precisa purificá-lo pelo Nome de Jesus.
“Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia.” (1 Tm 1.5). Esta é a exortação de São Paulo, o apóstolo, a Timóteo, seu discípulo. Exortação esta que ainda se aplica a todos nós.
Reverendo André Botelho

